segunda-feira, maio 09, 2005

sob a chuva

Cego que fiquei, pela primeira vez ergui a voz, gritei com os olhos, empunhei meu dedo como uma espada a cravar as feridas com palavras e levantei o ego que imaginava morto há meses, anos.
Mas doía em mim. As lágrimas eram como as palavras que rasgavam o silêncio das gotas grossas da chuva fria caindo em telhados finos que ainda dormiam na nossa manhã de domingo. As lágrimas eram como as palavras: minhas. O sopro que era para prender minha garganta com um nó, apenas serviu para impulsionar mais voz que teimava em dizer a verdade. Ao menos, a minha verdade. Só a minha verdade. Talvez, alguma verdade. Mas, como as lágrimas e as palavras e o dedo como espada, a verdade também era minha.
Mas me cansei de pedir desculpa pelos teus erros, ou por todos os defeitos que eu considero coragem. Ou pelos medos que não tenho e que queres refletir nos meus zelos e cautelas estratégicas.
Não sou um espelho. Sou eu.
Posso ser seu, mas ainda assim sou eu.
Se falo baixo, não é pelo marasmo, ou pela rotina. É pelo respeito, pelo mérito de ser ouvido pelos ouvidos que querem me ouvir. Nunca pretendi invadir sua vida, seu sono, mas não me desculparei mais por tê-lo feito.
Sou grato a tudo isso, é verdade. Reconheço que teu abraço me faz falta, mas cansei de deixar meus braços erguidos ao léu, sem os teus a me segurar, me apertar, me sentir.
Se sinto sua ausência, sinto muito mais a minha.

Reconheço que não dei o primeiro passo, mas se estamos parados agoniados encostados cada um em um canto, não sou o único culpado. Mas aviso que meu próximo passo já não será mais em tua direção. Se o meu silêncio já não comporta teu espaço, não tenho mais como ceder. Se minhas mãos apoiando os teus passos não sustentam mais nós dois, talvez a sós sejamos mais que esse um que não somos há tempo. Talvez esse depois nunca venha, e meus sonhos soprem apenas o cisco nos meus olhos.
Se saí correndo, com a porta explodindo meus nervos em um som ressonante, foi pelo receio de me perder por algum instante no meio desses meus momentos de tormenta. Novos momentos de tormenta. O medo dos atos absurdos que pudessem ser tomados pelos meus dedos contraídos pelos arrepios da raiva que corria sob a superfície da pele junto com o sangue venoso, sujo, pobre, podre, sem oxigênio, meu sangue, meu sangue.
Meu sangue que corria rápido inundando meu corpo. Meu sangue que corria rápido pulsando o peito, pulsando o cérebro com idéias antigas, removidas que cantos escondidos e que achava esquecidos. Se meu sangue corria rápido, foi o que tentei fazer.
Foi o que fiz até chegar ao pátio e ouvir sua voz suspirando meu nome.






.por rodrigo.